Santa Teresa do Uruguai. O parque da Fortaleza se recupera aos poucos dos últimos incêndios. A arborização, a limpeza e a organização voltaram a se impor. O projeto paisagístico original de múltiplos verdes e flores. O sombráculo e invernáculo para flores de todo o ano. A Capatazia com suas imponentes palmeiras, já longe da ditadura, é bonito lugar para sentar, tirar uma foto. O mini-zoológico da Pajarera encanta as crianças. E o mar fresco, limpo das praias da Moza, Del Barco, das Achiras...um convite à saúde, à desopilação, ao descanso. E o Chorro, onde nossos filhos aprenderam, um a um, os primeiros passos da natação.... O braseiro de chão, que à noite fazia concorrência à lua que, por entre as altas árvores, se intrometia em nossas conversas, canções, enquanto degustávamos um peixe-rei recém retirado da água com nossos jererês, agora dorme sob as cinzas, como as crianças dormem nas barracas... Um chimarrão sorvido com a brisa fresca da manhã e a imaginação se solta reatando memórias de tantos acampamentos, de tantos laços familiares rejuvenescidos, de tantas amizades nascidas e crescidas ali. E uma certeza, uma vontade de cantar:
Sapete perchè, Il mondo và?... perchè in torno al mondo, gira l´amore...
Éh, o universo, desde sua mais primigênia raiz, até seu destino final é gerado, gestado, guiado pelo amor.
O amor do avô pelo netinho. Da mãe pelo filho... O amor das crianças, dos jovens, dos adultos. Amor que é busca e que é saudade. Que é aceno, que é afeto, que é confronto... Amor que é timidez, coragem, arrojo... Que é clamor, súplica, pedido por um pouco de atenção... Amor que é revolta, desespero, briga por um pouco de pão e um abraço de paz... Amor que é trabalho, suor e lágrima pelo pão de cada dia, pelo salário e pelo emprego...
Amor que se perde nas tortuosidades dos meios confundidos com fins... Amor que busca ser ouvido, e por isso grita, gesticula, se levanta mesmo pensando que vale subir nas costas dos outros...
Amor que recusa injustiça e procura-a para cada irmão.
Amor que se faz cochicho, afago, segredo, intimidade, delírio de encontros que prenunciam o céu.
Amor que se faz orquestra de pássaros convidando o parceiro para o filhote que precisa nascer. Amor que poliniza e fecunda, e se faz fruto, fartura do viver.
Amor que passa solitário, cabisbaixo, anônimo pelas calçadas...
Amor que se faz ordenamento econômico, político, social, cultural, ritmo necessário do conviver... paciência, pacificação, fraternura e vigor. Amor que se faz direito, dever... e respeito.
Amor que se faz prece ao Pai Nosso que tudo cria, que tudo envia, tudo convoca para o amplexo total...
Amor que, na impossibilidade, se faz inveja, gula, luxúria, orgulho, violência...como um grito desesperado para ser.
Porque o mundo, a vida, os homens, os anjos foram feitos pelo Amor e para o Amor...
O amor é constitutivo, essência, substância do que somos... do que não somos... e do que precisamos ser. Ele é a unidade dialética que vem antes e depois da discórdia, que constitui a alteridade de cada um, na Unidade plural...
Ah a timidez... o medo de não conseguir amar e ser amado..
Ah a pressa, a impaciência, de agarrar o amor, de fazê-lo seu, coisa reduzida ao alcance da mão... E então o amor foge, se esvai pelos dedos, se vela, se esconde... quem sabe aonde... e fica só a amargura e o vazio.
Ah o amor que se faz verdade, justiça, liberdade, gratidão gratuita e perdão...O amor que se faz história...
E o estribilho daquela música retorna ao ouvido:
Sapete perchè, Il mondo và?...
As crianças, abrem uma frestinha na porta da barraca, olham preguiçosamente e dizem: bom dia vô, vamos para a praia...
A Academia Sul-Brasileira de Letras deseja a você a harmonização que nasce e acontece a cada dia de 2012.
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